A Última Dança: Cris, Léo e Marta

    Quem testemunhou pode se considerar um privilegiado, quem não viu talvez não tenha outra oportunidade: o ano de 2020 entrará para a história como a última temporada em alto nível de Ronaldo (35) e, possivelmente, uma das últimas de Messi (33). 
    Desde 2007, ano a ano, ambos os jogadores disputaram e ganharam todos os principais prêmios coletivos e individuais do futebol sem encontrar adversário à altura. Em 2018, de maneira improvável, a hegemonia dos dois começou a ser quebrada, quando a bola de ouro caiu (bizarramente) no colo de Modric. Mas já no ano seguinte, o camisa 10 do Barcelona voltou ao trono de melhor do mundo.
    A dinastia estabelecida pelo argentino e pelo português, no entanto, tende a ser quebrada de maneira irremediável a partir de agora, quando veremos novos protagonistas despontarem no cenário das principais premiações do futebol europeu e mundial. Um indicativo disso é o anúncio dos indicados ao prêmio de melhor jogador da Europa sem nenhum dos dois nas três primeiras colocações. Aos poucos fica claro que Messi e Ronaldo em breve abandonarão os holofotes, as capas de revista, os frascos de shampoo e de isotônicos, as duas (únicas?) marcas de chuteira e, provavelmente vestirão a camisa de algum time de menor tradição em um final de carreira melancólico na China ou nos Estados Unidos. 
    Pode-se dizer que a partir de agora Messi e Ronaldo tornarão-se embaixadores do esporte, ajudando a propagar o futebol mundialmente e a popularizá-lo em países onde sua adesão é baixa. E que estarão realizados com isso. Conversa! Todos sabem que para um atleta de alta performance nada mais importa do que aquela idade entre os 25 e 30 anos em que se pode fazer de tudo com o corpo, com a mente, com o público, com o mundo. Com essa idade, Messi e Ronaldo quebraram recordes, estabeleceram dinastias na Espanha e na Europa, e, por diversas vezes, executaram o inimaginável, lembrando-nos muito - tanto para quem presenciou ao vivo quanto para quem só pôde ver as gravações - dos períodos áureos de Puskás, Pelé, Cruijff, Beckenbauer e Maradona. Somando os prêmios conquistados, os dois jogadores possuem 9 taças de Ligas dos Campeões e 11 títulos de melhor do mundo. 
    Ronaldo, além de ter conquistado todos os títulos possíveis no United e no Real, também deixou sua marca na seleção portuguesa ao ganhar pela primeira vez a Euro em 2016, ainda que fora das quatro linhas por conta de uma lesão que o tirou do confronto final contra a França. O vice-campeonato europeu de 2004, quando Portugal era favorito contra a zebra grega ficou entalado por 12 anos. Conquistou também a primeira edição da recém-criada Nations League em 2019. 

    
    Já no Barcelona, o Deus Messi reina como o maior ídolo da história do clube, tendo estabelecido um AM/DM como visto apenas em raríssimos casos no futebol mundial. Há quem diga que Léo é maior que o próprio Barcelona, já que levou o time catalão a se impor em território espanhol desde a estreia do argentino, impondo duríssimas derrotas aos blancos
    Ainda que nas disputas imaginárias entre maior e melhor desse século, seja muito difícil pensar em uma "seleção de todos os tempos" sem Messi e Ronaldo, constatamos com tristeza que o tempo da dupla está, fatalmente, no fim. Enquanto Cris já é poupado em jogos "menores", Léo parece cada vez mais cansado de ter que, em muitas partidas, carregar o time espanhol nos "pés". 
    Nesses últimos três anos inclusive, Messi tem dado sinais de um desgaste natural com o Barcelona, provavelmente provocado pelos seus 20 anos de permanência contínua no time (já é distante o ano de 2001, quando La Pulga desembarcava em La Masia), motivo pelo qual o jogador tentou forçar a própria saída agora na janela 2020/21. A transferência, como sabemos, não aconteceu, obrigando-o, dessa maneira, a cumprir seu último ano de contrato junto ao clube catalão. 
    Nos próximos 2 ou 3 anos veremos os últimos lapsos de genialidade do argentino, e só. Mesmo que Messi ainda participe das próximas Copa América e Copa do Mundo, tudo indica que um possível título relevante com a albiceleste não virá. Fato que estenderá por toda eternidade o debate entre críticos e devotos do jogador acerca de sua real importância na seleção argentina. Vemos então que os anos dourados da dupla, desde a primeira temporada em que CR7 foi melhor do mundo, estão acabando. Esperamos que Léo ainda tire algum coelho da cartola e encha os olhos dos torcedores ao redor do mundo, ainda que em ocasiões cada vez mais excepcionais. Foram quase 15 anos de magia, de gols impressionantes, de Hat-Tricks e tripletes, de dribles e assistências, de idolatria e fanatismo, de devoção e sacrifício. 15 anos de História. 


    E nesse mesmo período temos outra história de reinado: a alagoana Marta que, depois de ter passado por uma infância marcada pelo machismo, conquistou um dos maiores títulos da nobreza, o de Rainha. Do futebol. Do Brasil. Do universo bola. 
    Embora aqui em terras tupiniquins, Marta não tenha recebido o reconhecimento que merecia, na Europa e nos EUA fez-se real a promessa de um futuro feliz dentro do futebol. Mesmo assim, Marta nunca abandonou a seleção canarinho, conquistando para o Brasil dois títulos pan-americanos e amargurando três vices "doídos" nas Olimpíadas e na Copa do Mundo. 
    Em termos de conquistas pessoais, Marta é a maior artilheira da história de todas as Copas e ainda foi escolhida por seis vezes a melhor jogadora do mundo. Em campo, é uma grande dribladora, dona de técnica apurada, com excelente senso de movimentação tática e explosão física, além de ter muito talento na bola parada. Além de tudo isso, Marta é uma grande líder dentro e fora de campo, seja orientando e estimulando as demais companheiras, ou servindo como exemplo de sucesso, motivando incentivos para o esporte e trazendo exposição à competição feminina. 
    Quem não se lembra da Rio-2016 quando Marta foi mais reverenciada que Neymar, em um movimento que riscou o nome dele das camisas da seleção, substituindo-o pelo nome da rainha? 
    É claro que para nós brasileiros, a identidade com Marta sempre esteve mais ligada com a seleção do que com seu clube, por algumas razões: não acompanhamos as competições que ela disputa pelo Orlando Pride (EUA), logo não conhecemos seu desempenho cotidiano e não nos afeiçoamos pelo seu time, bastante desconhecido por aqui; acompanhamos em demasiado as competições que ela disputa pelo nosso país, sejam as Olimpíadas ou a Copa, por serem de curta duração, mais intensas e mais emocionantes; e por vivermos um certo ranço (preguiça) com a categoria masculina e seus falsos ídolos atuais - mais preocupados com os próximos contratos europeus - do que com a responsabilidade de vestir a camisa 5 estrelas.
    Ao futebol feminino uma vitória em alguma competição de destaque traria mais legitimidade e reconhecimento, ainda que esta apenas maquiasse o descaso e escamoteamento da CBF para com a modalidade. 
    Rainha Marta, no entanto, já deu o recado na última Copa do Mundo (2019) após eliminação para a França (de novo eles, de novo Henry): "precisamos de novas Martas", ou seja, não vai jogar para sempre, por mais que desejemos. Mesmo que continue tendo um papel importante dentro de comissões técnicas e iniciativas referentes ao crescimento do futebol feminino, seu encanto dentro de campo vai ficar somente na memória, como o gol antológico marcado contra a seleção americana no mundial da China, eternizado na voz do inesquecível Luciano do Valle: Marta - Gol de Placa


       Ok, mas onde vamos chegar com tudo isso? Ah, sim. A última dança.    
    Com a seleção portuguesa, CR7 ainda disputa a segunda edição da Nations, competição que até o momento estabelece-se como mais uma das artimanhas da FIFA para tentar preencher suas preciosas datas, quando deveria na verdade eliminá-las por completo (mas isso é papo para outro ensaio). O Gajo também deve disputar no ano que vem sua última Euro, adiada por conta da pandemia. Caso Portugal vença, será um bicampeonato histórico para a seleção, mas provavelmente CR7 permanecerá mais no banco do que em campo, dando força e orientando seus companheiros. Sendo assim, seu foco estará na Juventus e na ambição de conquistar a Europa, já que o time italiano amargou dois vices nos últimos seis anos. Após duas temporadas no calcio, Ronaldo conquistou as competições domésticas, mas ainda não conseguiu levar a equipe até o sonhado encontro com a orelhuda. A temporada 20/21 pode ser sua última oportunidade de se mostrar relevante e participativo no futebol.
    Léo, agora conformado em cumprir seu último ano de contrato com os catalães, confia mais no técnico recém-contratado (o holandês Koeman, ídolo como jogador do Barça nos anos 90) do que na diretoria do time, com quem já deixou claro seu descontentamento e a qual, inclusive, acusou de mau-caratismo. Se houver um raro alinhamento dos astros e Messi contar com alguma sorte, o fim DESTE Barcelona ainda pode somar uma ou outra taça, além de lapsos geniais de La Pulga. Como Ronaldo, ele ainda joga por sua seleção em 2021, na Copa América também adiada, campeonato que agora vai alinhar-se ao calendário das competições européias (dona FIFA agindo novamente). Essa pode ser a última chance de Messi conquistar um grande título com a Argentina, já que sua presença no mundial de 2022 ainda é incerta. 
    Em Marta e em Pia, técnica sueca bi-campeã olímpica com os EUA, hoje a frente da nossa seleção, está a esperança do sonhado ouro nas, também adiadas, olimpíadas nipônicas, a serem disputadas ano que vem. Uma premiação que se vencida, embora não reflita o investimento e apoio que o time recebe da CBF, ao menos recompensará o esforço árduo das meninas do Brasil. 
    Após a aposentadoria dos três, o que vão ficar são as imagens em alta definição, seus melhores momentos, os gols, as reportagens, os especiais, os dossiês, as biografias e certamente os documentários cujos direitos de realização Netflix e Amazon já se estapeiam para adquirir.

    Como encerramento peço permissão para tomar emprestada uma passagem do poema "Pneumotórax" de Manuel Bandeira, que traduz perfeitamente esse sentimento de fim:

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. 

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? 

- Não.

A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Ou um samba, ou quem sabe até um fandango.


Texto por Renan Lima
Revisão por Aline Hiane

Comentários

  1. Que sejam tangos, sambas e fandangos trazendo movimentos de prazer pra quem vê.

    No aguardo dos próximos.

    Abraço!

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